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Mercado de trabalho: a revolução industrial é apenas parte do problema!

"Estamos a bordo de uma revolução tecnológica que transformará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Em sua escala, alcance e complexidade, a transformação será diferente de qualquer coisa que o ser humano tenha experimentado antes", diz Klaus Schwab,  presidente executivo e fundador do Fórum Econômico Mundial (1), cujo tema em 2016 foi exatamente a “4ª Revolução Industrial” (2).



O tema não é novo. Temos falado sobre o impacto da inteligência artificial (IA), da Internet das Coisas (IoT) e da 4ª Revolução Industrial desde 2012 aqui mesmo no blog (3).

Nessa nova indústria, dizíamos à época, as peças usadas no processo de manufatura passam a conhecer a sua própria configuração e o seu recipiente de armazenamento e transporte, são capazes de gerar os pedidos de material necessário e se conduzem para os seus respectivos clientes. A informação, passa a estar incorporada ao produto.

A tecnologia deixa de ser um mero suporte e passa a realizar uma considerável parcela do processo produtivo por si mesma. Os controles centralizados de produção serão suplantados por soluções descentralizadas, conforme as redes forem se tornando mais inteligentes e capazes de interligar as coisas – as chamadas “comunicação máquina a máquina” (M2M) e a “Internet das Coisas”. Assim tratávamos desse assunto há quatro anos atrás.

A expectativa, era [e ainda é] que as técnicas de fabricação da também chamada “Indústria 4.0”, estejam disseminadas por volta do ano de 2020. Estamos hoje, portanto, na metade do caminho.

A implementação da Indústria 4.0 irá agregar US$ 14,2 bilhões à economia mundial nos próximos 15 anos, segundo estudos da Accenture divulgados no ano passado.

Para Schwab, essa nova revolução industrial também irá afetar o mercado de trabalho [quali e quantitativamente] assim como a desigualdade de renda entre as famílias que pode até aumentar.

O alarme foi dado há algum tempo e os impactos não estarão restritos apenas à indústria: 47% de todo o trabalho nos EUA está sob "alto risco" de ser computadorizado nas próximas duas décadas, de acordo com um estudo de 2013 elaborado por pesquisadores da Universidade de Oxford (4).

A boa notícia, é que a Industria 4.0 tem o potencial de melhorar os níveis globais de rendimento e por consequência a qualidade de vida das populações como um todo, segundo Schwab. As mesmas populações que surfam no novo mundo digital e que hoje fazem pagamentos e chamam serviços de táxi do tipo Uber utilizando aparelhos celulares de baixo custo.

A má notícia é que esse  processo de transformação só irá beneficiar aqueles que forem capazes de inovar e se adaptar.

O desafio é em muitos aspectos educacional, uma vez que a profunda mudança que se avizinha terá o poder de destruir mais empregos do que criar outros, pelo menos durante um certo período de tempo.

Países com baixo nível educacional, tradicionalmente ancorados em trabalhos de baixa qualificação devem sofrer mais, considerando que os postos de trabalho criados no futuro tenderão a exigir uma capacitação maior do que a média atual.

O Brasil, onde 38% das pessoas formadas em instituições de ensino superior não dominam habilidades básicas de leitura e escrita - segundo o Indicador de Analfabetismo Funcional, INAF (5), terá problemas sérios nessa área.

Os analfabetos funcionais produzidos pelo nosso sistema educacional mal estão sendo preparados para as profissões típicas do século passado, a exemplo da advocacia que tende a uma demanda cada vez menor de profissionais e restrita àqueles com mais alta especialização. Atividades rotineiras, como busca de documentos, jurisprudências e redação de petições, estão sendo feitas por sistemas automatizados cada vez mais sofisticados, desses baseados em inteligência artificial, deep learning e outros quetais.

O alerta vale para os advogados mas também para os administradores, os contadores, os operadores de call center e outras profissões de escritório - os chamados “white collar” - que se safaram nas revoluções anteriores. O bicho agora vai pegar. E você, está preparado para essa transição?

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(1) Criado em 1971, o fórum é realizado anualmente em Davos e reúne lideranças mundiais para discutir temas econômicos de interesse global, como estratégias para a retomada do crescimento ao redor do mundo e ações para o aquecimento da economia nos países. O Fórum produz vários relatórios de pesquisa e engaja seus membros em iniciativas setoriais específicas [Wikipedia].

(2) A 1ª revolução se instalou no século XVIII [entre 1760 e 1830] com a produção mecanizada. A 2ª começou por volta de 1850 com a manufatura em massa e o uso da eletricidade e a 3ª, a partir de meados do século XX com o advento da eletrônica e das tecnologias da informação e comunicação.

(3) >> http://bit.ly/2ekyhvo

(4) >> The future of employment: how susceptible are jobs to computerisation? [http://bit.ly/2II8W7Q]

(5) >> “Criado em 2001, o Inaf é realizado por meio de entrevista e teste cognitivo aplicado em uma amostra nacional de 2 mil pessoas entre 15 e 64 anos. Elas respondem a 38 perguntas relacionadas ao cotidiano, como, por exemplo, sobre o itinerário de um ônibus ou o cálculo do desconto de um produto.
O indicador classifica os avaliados em quatro níveis diferentes de alfabetização: plena, básica, rudimentar e analfabetismo. Aqueles que não atingem o nível pleno são considerados analfabetos funcionais, ou seja, são capazes de ler e escrever, mas não conseguem interpretar e associar informações.” ~Estadão, jul/2012