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#103 - Crise dos caminhoneiros: vivemos uma comédia de erros

Boa segunda-feira galera. Numa análise sob o ponto de vista da oferta, o economista [e físico da USP] Samuel Pessôa fala sobre erros importantes cometidos pelo governo a partir da crise de 2008. Segue um excerto do seu artigo na Folha publicado neste domingo (27/5): 
Logo após a crise de 2009, os formuladores de política econômica passaram a estimular a compra de caminhões com empréstimos subsidiados do BNDES. Achava-se que seria política contracíclica eficaz para ajudar a economia a sair da crise iniciada em 2008. O programa de crédito muito barato persistiu até o primeiro mandato da presidente Dilma. De 2009 até hoje a frota de caminhões aumentou 40%. A economia, no mesmo período, cresceu 11%. Não havia necessidade de tanto caminhão. Evidentemente, o excesso de oferta de caminhões pressiona o frete para baixo.
A situação é especialmente difícil para o motorista autônomo. Os grandes operadores expandiram muito a oferta e podem contratar outros motoristas. Mesmo porque o mercado de trabalho muito fraco, com elevado desemprego, facilita as coisas para os grandes operadores. A movimentação de veículos pesados nas estradas pedagiadas encontra-se quase 12% abaixo do pico de fevereiro de 2014. As montadoras, por sua vez, trabalharam anos a plena carga para, em seguida, ficar anos com elevada ociosidade.

crédito: BBC / Reuters



O relato de Samual Pessôa é mais um dos inúmeros casos de intervenção governamental desastrada que provocaram desequilíbrios na economia com reflexos sentidos muitos anos a frente, quando a maioria da população já se esqueceu dos eventos passados, ou pior, nunca se deu conta de que eles os estavam levando a cair numa cilada. E mais um pouco de história...

Geraldo Samos (Noticias Agrícolas) mar/2015:
Ref: "A bolha dos caminhões: uma crise gerada em Brasília". O engenheiro Ricardo Gallo, que trabalhou 19 anos no BankBoston e hoje é um gestor independente, se debruçou sobre os números do setor. Ele comparou a expansão na oferta de caminhões com o aumento do PIB do setor de transportes nos últimos anos.
A conclusão: o crédito barato do BNDES gerou um excesso de oferta de quase 300 mil caminhões — 288 mil, para ser preciso, o que equivale ao número total de caminhões licenciados no País a cada dois anos. Foi uma brincadeira cara. Foi um negócio grosseiro. Através de um programa de crédito barato chamado PSI, lançado em 2009, o BNDES financiava 100% do valor de um caminhão e cobrava juros fixos de 7% ao ano, a serem pagos em oito anos.
Como a inflação, na época, rodava a 5,5%, o juro real que o banco cobrava — 1,5% — era um convite ao crime, incentivando os caminhoneiros (e até quem estava fora do mercado) a fazer o investimento.

2   E por falar em preço de combustível nas alturas, o Brasil não é o único país a enfrentar problemas, a alta dos combustíveis já atinge grande parte do mundo. Nos EUA, a gasolina já subiu algo como 31% [y/y] neste 28/5, data em que se comemora o Memorial Day.

Emily Price (Fast Company):
Fifteen states are already seeing prices at over $3 a gallon. AAA says the reason for the higher prices is in part due to the fact that people are simply driving more. The organization expects that 41.5 million Americans will travel this weekend, up almost 2 million from the same time period last year. Thanks to the rule of supply and demand, higher demand on the existing gasoline supply is leading to higher prices, CNN reports.
In addition to the fact that simply, more people are driving, the organization says that the price of crude oil is up 50% over last year. Those prices soared earlier the month when President Donald Trump announced he would be withdrawing the U.S. from the Iran nuclear deal. Iran is currently the fifth-biggest oil producer in the world.  

A situação internacional ajuda a explicar a turbulência provocada pelas manifestações dos caminhoneiros no Brasil esta semana, porém, está longe de ser a única e principal explicação para os nossos problemas, como se vê em "a bolha dos caminhões" (acima), escrito há mais de 3 anos.


Empresas da economia digital 

3   Se você precisava de um bom motivo para assinar o streaming de vídeo da Amazon eis que surge a oferta matadora. "The Expanse", uma das melhores séries de sci-fi dos últimos tempos foi adquirida por Jeff Bezos. O anúncio, nesta sexta-feira, confirmou a realização da 4a temporada.


4   A partir desta sexta-feira (25/5) passou a valer a nova regulação de proteção de dados, a chamada GDPR* - General Data Protection Regulation criada pela União Européia. Agora, todas as empresas que operam ou mesmo servem os cidadãos da UE devem seguir as novas regras de privacidade que determinam, dentre outras providências: a) apontar um representante legal dentro da UE para responder questões da GDPR; b) nomear um Data Protecting Officer (DPO) em sua estrutura, para organizações que manipulam dados em massa (lembrem da Cambridge Analytica).


 Microsoft Layout é um novo aplicativo criado pelo pessoal de Redmond que permite a criação de plantas baixas a partir de objetos elaborados com tecnologia de realidade mista com o uso do headset Hololens. A ideia básica é simples, vejam o vídeo auto-explicativo:



Redmond segue a sua trajetória com o desenvolvimento de aplicações empresariais, enquanto aguardamos o anúncio da 2a geração do Hololens adiada para o final de 2018. Espera-se um headset untethered, como recém-lançado Oculus Go no início deste mês de maio, embora muito mais sofisticado e com preço pouco convidativo para o público em geral. 


 Jeff Bezos, através de sua empresa de empreendimentos espaciais Blue Origin, falou mais uma vez de seus ousados planos de trabalhar com a NASA e com a European Space Agency para criar assentamentos na Lua. Em sua visão de futuro, a indústria pesada deverá ser movida para fora da Terra, enquanto trabalhamos para tornar o nosso planeta um lugar melhor de se viver.

Alan Boyle (GeekWire):
The way Bezos sees it, moving heavy industry into solar-powered space outposts is the only way to ensure that our planet can cope with the rising demand for energy, and the stress that growing populations will put on Earth’s environment. “We will have to leave this planet,” Bezos told me. “We’re going to leave it, and it’s going to make this planet better. We’ll come and go, and the people who want to stay, will stay.”
Earth will be zoned for residential and light industrial use, while heavy industry will be moved off the planet and powered by 24/7 solar power, he said.
“The Earth is not a very good place to do heavy industry. It’s convenient for us right now,” Bezos said. “But in the not-too-distant future — I’m talking decades, maybe 100 years — it’ll start to be easier to do a lot of the things that we currently do on Earth in space, because we’ll have so much energy.”

Bezos, que se tornou a alma viva mais rica do planeta, está determinado a realizar o que parece ser o seu maior sonho, e avisa: "...uma de duas coisas vai acontecer, ou outra pessoa assume essa visão ou eu irei acabar sem dinheiro" (sic).




* "O novo regime de proteção de dados proposto pela UE estende o escopo da lei de proteção de dados da UE a todas as empresas estrangeiras que processam dados de residentes da UE. Ele prevê uma harmonização dos regulamentos de proteção de dados em toda a UE, tornando mais fácil para empresas não europeias cumprir com estes regulamentos. No entanto, isso vem à custa de um estrito regime de conformidade de proteção de dados com penalidades severas de até 4% do volume de negócios mundial. O GDPR também traz um novo conjunto de "direitos digitais" para os cidadãos da UE em uma era de aumento do valor econômico dos dados pessoais na economia digital." Wikipedia




São Paulo, 28 de maio de 2018